quarto subversivo


     

CHIQUE

Alinhado eximiamente, em um requintado restaurante... Eu comi um Spaghetti alle vongole.  Sorvi umas taças de Prosecco.

 

Fui pra casa, caguei tudo e dei descarga. Dinheiro não é nada!

 

Algumas coisas apenas: um por do sol ou um céu com estrelas, boa ducha, redezinha estendida, abraços apertados, um lençol cheiroso e velho, uns beijos sem vergonha, sorrisos e gargalhadas, silêncios, suor, juras de amor verdadeiras e sem nenhuma sofisticação, movimentos pré-históricos... Um eu te amo de boca cheia, assanhado e lambuzado.

 

Etiqueta dá azia. O que é tudo é a companhia.

 

Ser feliz é de graça, tão singelo.



Escrito por dono do quarto às 04h19
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HIATO

 

Em "Um sopro de vida" de Clarice Lispector



Escrito por dono do quarto às 21h26
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A MEDIDA DO ANO

Em que ano estamos? Está muito longe ou está já perto de acabar? Vai dar tempo ainda? Eu não tenho, definitivamente, noção certa de quanto vale uma milha, eu só sei quanto vale um metro, pois me é visível. Da mesma forma acontece com a noção de tempo. Um ano se torna abstrato para mim diante da relativa certeza do dia. Será estratégia da felicidade fechar os olhos e de repente ver o ano acabar? Ou será subterfúgio do atraso para entendermos-nos satisfeitos com o que já somos hoje?

 

Acostumado a visões em curto prazo, não mensurei, de fato, quanto valeu esse ano, até quase na véspera do fim, quando de supetão me dei conta... Quando as árvores de natal pipocaram por todos os lugares, anúncios nos outdoors, os comerciais, a Globo com aquela musiquinha “hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa…” e a fisionomia das pessoas me acertaram em cheio! “--- Tonto, acorda, já acabou!”

 

Tonto talvez até pudesse estar sendo mesmo, mas confesso que se fui, não foi intenção. Aí para não me sentir tão frívolo, quis logo saber se valeu a pena, fui então pensar com meus botões: Poxa, e aí? O que eu fiz nesse ano?

 

Em um gesto estranho, como são quase todos meus gestos, comecei a contar tudo, mensurar tudo que me vinha à cabeça. Tudo que ocorreu, tudo que fiz e desfiz, tudo que me transformou e o que eu transformei. Senti-me na obrigação de contabilizar, porque eu queria saber se nesse tempo entre o que eu ganhei e perdi me sobraria algum proveito.

 

Muitas coisas se foram, outras chagaram para sempre e ocuparam o lugar vazio... Um instante... Do todo eu até cogitarei, mas de cada eu não vou contar. Não seria muito bacana eu contar-lhes quantos amores eu tive, quanta cumplicidade eu não tive,  quantas súplicas eu implorei a Deus, quantos fracassos foram reconhecidos, quantas transas estupendas, quantas amizades firmadas, quanta colegagem desmascarada, quantas paqueras bobas, quanta aprendizagem angariada, quantos sexos meia boca, quantas companhias inesquecíveis, quantos dias plenos, quantas noites mal dormidas, quanta vontade exaurida, quantas pessoas traumáticas, quantas alegrias incríveis, quantos fundos de poço, quantos momentos oportunos, quantas sextas feiras solitárias nem quantos sábados badalados. Essas coisas eu não deveria contar nem a mim mesmo, porque tudo isso faz parte do resultado final dos meus cálculos, são eles que ao final entregam a minha totalidade e minha totalidade é meu segredo, meu mistério nesse mundo, segredo e mistério até para mim...

 

Como tudo que prometo não se pode escrever, a conta foi feita sim. Mas como eu disse, se prometo, não é de se escrever, por esse motivo, não constará nas linhas, quiçá nas entrelinhas. Cogitando-lhes apenas, de fato, não foi um ano tão espetacular.

 

Muitas coisas eu vivenciei diante dos meus olhos e outras tantas eu vivi sem ao menos ver. De júbilos transcendentes, alegrias e descobertas para o bem estar psíquico passando por dores estomacais e desagrados que antiácidos não resolvem e corroem mais que qualquer úlcera.

 

Esforços diários para amar a normalidade das coisas. Controle constante das loucuras lúcidas de quem precisa amar a normalidade. Goles de loucura para alimentar a alma inquieta e goles de normalidade para não espantar os outros... Porque é preciso ser social.

Nesse rompante de deparar-se com o óbvio e por conseguinte viver um deflagrado espanto, me dei conta sim que atingi muito pouco de minhas proposições. Termino o ano nada parecido como um dia imaginei-me terminando o ano de 2009. Por isso, pensei demais, contei, contabilizei, calculei... Isento da noção de tempo, como um andarilho que conta seus passos em milhas, sem saber com que medida se conta a vida. Faltou-me ambição, a verdade é essa, e por isso, na maratona da vida eu humildemente só caminhei.

 

Não falo da ambição egoísta que quer além do que se pode, falo da ambição de correr atrás do que parece impossível de se ter, mas que com luta se consegue. Aceitei-me sendo em permanência, afrontando diretamente qualquer sonho de apogeus.

 

Isso é fato, mas apenas o fato não ganha uma causa e o fundamento do caso depois de tantas contas é que não se precisa de magnitude para que algo seja pleno. Entendeu aí? Porque magnitude não tem nada a ver com plenitude. Talvez esse fora meu erro.

 

Magnitude é condição do que é magno; refere-se à grandeza, importância. Plenitude é estado do que é inteiro, completo; significa totalidade, integridade. O que eu fiz em 2009? Não voei por muito alto perto dos meus sonhos, nem cavei e escalei muito nas profundezas do desalento. Engatinhei passos de felicidade, na esperança de colheitas sem estação certa, é tudo que tenho a dizer.

 

È de se viver o tudo e o nada, fugindo sempre do mais ou menos, porque é assim que a vida se faz plena. Mais antes um homem íntegro a um magno. Mais antes um homem completo a um importante. A laboração da plenitude requer tempo. Não é repentina como a efemeridade da fama, por exemplo. Plenitude é engenho, é aguardo, paciência, perseverança, crença, fé, é um esperar de germinação, concatenação silenciosa, como as aves que chocam seus ovos, esperam tempos, acreditando que no momento propício a mesmice de sua espera vai valer a pena. A crença que o extraordinário ainda estar por vir. O ápice de você para você mesmo, não o seu ápice para os outros, isso sim é plenitude.

 

Existem propósitos que são superiores a mim, quase todos, que ocorrem numa unidade de tempo que não sou eu quem conhece. È de se sentir como uma grande obra sendo produzida, as melhores obras podem ser feitas em um dia, como podem demorar anos e talvez até décadas. Mas há de se reconhecer a intenção dos anos e dos dias... São os tijolos do monumento. Construir é árduo, construir-se é mais árduo ainda.

 

Pois bem, mais uma estância da vida se finda, mais um ano termina para o início de outro. Que neste próximo ano os melhores propósitos aconteçam, abrangendo metros ou milhas no tamanho que a plenitude necessitar. Que as colheitas venham fartas, abundantes no momento e na estação que a plenitude convir. Que os vôos possam ser altos e longos na altura exata da minha plenitude. Que os tropeços, os desfalques e as quedas sejam estritamente condizentes com o que eu precisar para ainda assim e apesar de tudo sentir-me pleno.

 

[CONTINUA...]



Escrito por dono do quarto às 06h32
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[CONTINUAÇÃO]

 

Disso tudo, que a cada acordar eu esqueça de tudo que não consegui e lembre de tudo que ainda vou conseguir. Ao abrir o olho a cada dia, que eu esqueça daqueles que não estão e ainda assim saiba reconhecer seus valores, que eu lembre principalmente daqueles que ainda estão e fundamentalmente nunca esqueça das pessoas que ainda precisam estar aqui comigo.

 

Que minhas metas não sejam somente proposições, desta forma, a coragem não pode me deixar dormir tanto. Ah o sono!Que o sono demasiado me deixe em paz, que os lugares me tenham de um modo tão agradável que a minha cama figure irritadiça. Que todas as vontades, intenções, metas esqueçam os travesseiros do meu sono, onde dormem meus sonhos e acampe ou more de vez no lugar da realização.

 

Que eu deixe essa de sempre deixar pra depois, que eu deixe essa de sempre estar atrasado, que eu deixe essa de sempre ter desculpas, que eu deixe essa de me decepcionar por tudo, que eu deixe essa de me zangar fácil, que eu deixe essa de acreditar em tudo, que eu deixe essa de acreditar mais na sorte que no trabalho.

 

E não poderia esquecer... Que meu humor seja sempre minha maior dádiva já que eu conheço intimamente a intensidade da sua força!

 

Que verdadeiramente eu respeite meus propósitos, e lute arduamente para suas realizações, de boas intenções o mundo já está cheio. E como sei que essa luta não é fácil peço a Deus essencialmente que permita saúde, fé, coragem e o amor aqui sempre comigo por todo o tempo... Assim, venha o que vier, seja como for.

 

Que em 2010 a vida seja plena e que vivamos como a criança que não teme o tempo... Como a criança que não conhece nenhuma unidade de medida, que desconhece a noção de metros ou milhas, que não calcula nada, mas que ainda assim vê que tudo é imenso.

 

Não nos importemos com o tempo, festejemos os segundos, os minutos, as horas e os dias, indiferentes do quanto valerá ao final. Contemos apenas do quão estamos felizes e plenos, o que e quanto durará não nos compete. Lembremos apenas que os anos ensinam muitas coisas que os dias desconhecem. Tenhamos sempre inteira certeza disso!

 

Cada momento tem sua razão de ser, e se assim foi, estejamos prontos para o que ainda será.

 

Que venha 2010!

 

OBS. Falo de 2009 sobre meus propósitos, mas teve Brunna Eduarda, que apesar de não ter sido um propósito meu, veio como presente. Brunna que vale por todo o tempo, por todos os anos de existência de toda a existência humana. Que significa todo o brilho que não se pode mensurar, que ultrapassa a grandeza e a luminosidade do sol de qualquer sistema solar. Que preenche o lugar reservado ao amor que ainda não chegou e que vale por todo o amor que o mundo já sonhou e ousou sentir. A felicidade tem a beleza de seus olhos, a amenidade e o gracejo do seu sorriso, tem a calmaria de seus sonos e a fúria dos seus desejos em comer. A felicidade é vivaz, charmosa, linda, carismática, cheia de sorte. Na minha casa a felicidade tem esse nome, Brunna Eduarda, e vivê-la a cada dia é a plenitude de nossas vidas.  Por isso esqueçamos as contas, os superávits da vida são desígnios de Deus, viver plenamente é nosso único ofício.

 

A felicidade é minha sobrinha, minha afilhada, minha filha postiça, olha só!  E tudo que significa “tanto” para nós, é imensurável. A felicidade sempre vai ser infinita, seja onde ela estiver.



Escrito por dono do quarto às 06h28
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RECEITA DE NATAL

INGREDIENTES


- 1 indivíduo

-  Experiência, discernimento e bom senso a gosto
- 2 litros de introspecção

- 3 xícaras de coragem
- 2 xícara satisfação

- 1 porção de compaixão

- 2 colheres de sopa de arrependimento

- 2 litros de gratidão

- Sonhos temperado a companhia
- ¼ de fantasia

- 1 taça de esperança

- Fé e amor a gosto

MODO DE PREPARO

 

Lave o indivíduo com introspecção e bom senso, deixe descansar da ilusão do mundo até o coração crescer e deixá-lo no ponto. Bata pelos uns 30 minutos por dia  o indivíduo com toda experiência e discernimento misturando lentamente com as 2 xícaras de satisfação e as 2 colheres de arrependimento. Pegue o resultado obtido e junte aos 2 litros de gratidão ao final do ano.

 

Junte as 3 xícaras de coragem, a porção de sonhos temperado a companhia, juntamente com o ¼ de fantasia e bata no liquidificador até formar um creme consistente. Por último acrescente a compaixão, esse é o segredo da receita natalina, sem ela não tem como dar o ponto à massa.

 

Leve ao forno de Deus pelo tempo necessário, até a massa se tornar consistente e macia.

 

Depois de pronto, cubra homogeneamente com a fé e o amor, até que fique totalmente pleno.

 

Depois de pronto, deguste a receita com a taça de esperança.

 

Sirva a vontade, o mundo precisa dele.



Escrito por dono do quarto às 06h00
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O LAR PORNÔ SAGRADO DO CORPO

Corpo: materialidade desejada pela composição humana, anseio do instinto animal. Essa fisionomia que faz perder o sono e faz dormir. Essas curvas que desarrumam a cama com a presença e faz quebrar na ausência.

 

Corpo remete a companhia, tato, sexo, volúpia... Corpo é movimento, concatenamento... Corpo é um conjunto empenhado, que não escapa nem uma unha, nem um fio de cabelo foge do prazer.

 

De primeiro impacto, o que fixa são os olhos e o sorriso. Não tem como, não adianta vir com balela, o sentido da visão é o mais audaz. Olho comanda a alma, sedução pura. Olho, boca, misturados a outros aspectos é o ponto crucial da excitabilidade. Sorriso vem depois, já denuncia, no crime ou no obséquio. Na ação ou transgressão. Largamente é contagiante, discreto é sedução, e na paquera mesmo muito pouco, já é tudo, é apaixonante.

 

Posteriormente tudo é apenas disposição aguçada dos outros sentidos. È lábia, é tato, é imaginação... Todos os sentidos.

 

Corpos quando se olham e se entendem... Instantaneamente remetem-se a uma posição sexual, uma fantasia, uma situação e um momento, por isso mesmo bundas e pernas são tão bem observadas.

 

A configuração íntima, individual de cada ser, que se faz o charme. A seqüência do passo, o riso, o piscar do olho, o terminar do beijo. È o que ninguém explica, que provém da energia cósmica e humana de cada ser, o que a morte afasta e iguala a objeto.

 

Então surge o olfato. Talvez o cheiro de um perfume que não se sabe o preço, talvez arranjado numa gôndola de um mercado qualquer ou numa perfumaria fina de aromas franceses. Perfume? Maquiagem da obra, mascarada pra descobrir-se o suor, o valor do faro, o cheiro do corpo humano, o melhor cheiro, o aroma imprescindível. Quando também se faz gosto, bebida. Suor em gotas, lambida.

 

Alma, sopro divino, essência que diferencia cadáver do corpo. Vitalidade do organismo que nunca pode vacilar, é o mistério humano, o ápice da existência.

 

A pele: ímã infame dos que se amam. A vontade injustificável de devorar, comer, engolir e ter pra si. Camada nada abjeta numa química perfeita, para uma atração voraz. O que mais arde com a distância, o que mais é imprescindível no medo, a pele, da mão, o abraço.

 

Adentrando mais adiante, além da superficialidade, nas vias de fato, algumas coisas que são essenciais:

 

Respiração, o que verifica a vitalidade. O ritmo, compasso que ao descompassar-se e se traveste de fungado, atrai o ouvido alheio, pia, geme. Pela respiração muda-se o tom da voz, desejo, súplica, amor, fraternidade, cumplicidade, sintonia.

 

Coração, órgão muscular oco para os estudiosos e cheio para os sensíveis mortais, localizado na cavidade torácica, que recebe o sangue das veias e o impulsiona para dentro das artérias. Onde mora o existir. O armário da alma. Só sabe que se vive por ele. Por amor, ódio, paixão, tristeza, alegria, é ele quem primeiro se manifesta, pensa. Quando ele pára, mesmo estando plenamente vivo, já morreu.

 

O corpo humano diferencia-se da animalidade da matéria, substancialmente pelo sentimento. Tudo tem repercussão imensamente maior se entre a matéria e o gozo, brota carinho.

 

O amor?Afeição, afinidade sem nenhuma explicação, atração psíquica e corpórea, transcendência, efeito divino. Uma força agregadora e protetiva que ninguém explica.

 

Da mistura, do que se mostra corpo e do abstrato do sentimento surge a lágrima. Corpo fere corpo, sentimento fere corpo, corpo fere sentimento, sentimento fere sentimento. Lágrima... O humano é o único que chora, escarnece, apaixona-se, odeia, ama, se vinga. Lágrima é a parte palpável do sentimento, é o sumo dos pensamentos, é alegria ou tristeza profunda. O corpo faz chorar, saudade, amor, paixão... Tudo dói. Mas há o que é prazer. Há dor que também é prazer.

 

Corpo deseja corpo. Condomínio. Tronco, pescoço, nuca, boca, cintura, mãos, o poder das mãos. Toque. Língua no corpo, corpo na língua. Coração na mão, mão na nuca, cabeça no coração, genitálias. Tudo, tudo, tudo encadeado. Conjunção. Amor. A continuidade do prazer, o sexo, a explosão, o gozo. Comunhão. Vontade, desejo de chamar de meu, seu. Eu latejo, tu salivas, nós nos consumimos.

 

O corpo é a casa, o primeiro e ultimo lar. Tua residência, sobrado, bangalô. Cada cômodo com uma função, visitas cômodas e as incomodas, habitantes e transeuntes, amigos, amores, tudo.  Toda casa é feita para ser habitada. Casa tem que ser limpa, cheirosa, charmosa, paredes boas e firmes, de caráter, com um quarto de hóspedes e uma cama macia, confortabilíssima para o amor dormir. Todos cabem, tudo mora aí. Pode se achegar que te ponho a mesa, armo uma rede, abro a janela...Casa, comida, roupa lavada. Alma lavada.

 

Vende-se, aluga-se, doa-se, entrega-se. Eu te dou minha chave. Habite-me se for capaz. Lar doce lar!



Escrito por dono do quarto às 05h12
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 QUANDO A MÚSICA PÁRA POR UM PESAR

          Morre a segunda letra M, dentre as três maiores cantoras tradicionais do mundo, Mercedes. Mercedes Sosa, Miriam Makeba e Maria Bethânia, encabeçam a lista das mais sublimes cantoras mundiais, a meu ver, como sempre digo por aqui. Cantoras que carregam o mundo nas costas, traduzindo o pensar de todo um povo, um tempo, de todos os sentimentos que não tem fronteiras. Há um ano se perdia Miriam, tristemente agora se perde Mercedes... Porém seus legados, a cultura, o pensamento perdurará sempre, pois o que cantaram nuca irá acabar. O poder da música e das idéias é imortal e inextinguível.

   

Mercedes Sosa e Leon Gieco - El himno de mi corazón

         A Argentina chora a morte de Mercedes Sosa, a “La Negra”, a voz da América Latina, em uma despedida que reúne centenas de fãs no Congresso da Nação, uma honra reservada as mais altas personalidades da política e da cultura do país.

          Aos 74 anos, a intérprete morreu neste domingo em um hospital do bairro portenho de Palermo em conseqüência do agravamento de uma afecção hepática que se complicou devido a problemas cardiorespiratórios.

          Cristina Kirchner deu seu último adeus a Mercedes Sosa e decretou luto nacional.Visivelmente emocionada, Cristina permaneceu durante alguns minutos em silêncio junto ao caixão, enquanto que vários intérpretes cantavam canções que foram imortalizadas pela artista.

          A cantora foi homenageada em todos os estádios de futebol do país, onde milhares de pessoas fizeram um minuto de silêncio em sua memória.

          Mercedes Sosa trabalhou intensamente até poucas semanas atrás. No ano passado, havia sustentado que continuaria cantando até os últimos dias da vida, tal como uma cigarra.

          Especialista em interpretar as palavras de escritores, abraçou a poesia dos grandes autores argentinos e latino-americanos.Mercedes Sosa possuía um vínculo especial com o Brasil, país onde esteve dezenas de vezes e possuía muitos amigos. Com vários deles protagonizou duetos que entraram para a história da música latino-americana. Entre as parcerias, cantou com Chico Buarque, Milton Nascimento, Fagner, Gal Costa, Beth Carvalho e Maria Rita.

          A cantora folk argentina Mercedes Sosa,  lutou contra as ditaduras fascistas na América do Sul com a sua potente voz e se tornou numa lenda da música mundial.

          Carinhosamente apelidada "La Negra" devido ao seu cabelo preto e à tez morena, Sosa foi igualmente chamada de “voz de uma maioria silenciosa”, tendo sempre lutado pelos direitos dos mais pobres e pela liberdade política.

          O seu último álbum, Cantora (volumes 1 e 2), uma colaboração com artistas como Shakira, Caetano Veloso, Daniela Mercury, Joan Manuel Serrat e Jorge Drexler , foi um dos dez mais vendidos e ganhou várias nomeações para os Grammys Latinos, que serão atribuídos no próximo mês.

          Há vários anos que Mercedes Sosa se debatia com problemas de saúde, mas nunca quis largar a música. Em 2001 deu uma entrevista em que disse: “Não sou nova nem bonita, mas tenho a minha voz e a minha alma, que me sai quando canto”.

          Para o cantor brasileiro Fagner, parceiro de Sosa há anos, ela deixou a lição de ser uma “guerreira”.“Ela tinha importância fundamental na música da América Latina. Nos momentos difíceis que passamos, ela virou a grande bandeira”, afirma, referindo-se à luta da cantora argentina contra os regimes ditatoriais de toda a América do Sul. “Perdi uma grande amiga,com ela entrei nos países da América Latina cantando.”

          O musicólogo Ricardo Cravo Albin também destacou : “Eu diria que não é apenas a Argentina que perde, é o mundo inteiro, especialmente a América Latina e a América do Sul. Mercedes Sosa não definiu a solidariedade apenas com a música, mas definiu a solidariedade global com o ser humano, para cantar o melhor do ser humano e promover melhorias para ele.”

          "Ela [Mercedes] teve uma importância muito grande como cantora e compositora que mais expressou os sentimentos de liberdade, justiça e confraternização dos povos latino-americanos" disse o senador Eduardo Suplicy. "Ela recebe uma justa homenagem de todo o povo argentino", acrescentou.

          Para Shakira, "Mercedes foi a voz maior e teve o maior coração para quem sofre. Foi a voz de seus irmãos da terra que elevou o canto da dor e da justiça" "deixa o mundo cheio de seus cantos, povoado de seus versos".

          Milhares de mensagens chegaram do mundo todo. A cantora italiana Laura Pausini, declarada fã de Sosa, já sabendo do seu estado de saúde, lhe homenageou em show, na noite anterior, cantando "Gracias a La Vida".

          A presidente chilena Michelle Bachelet enviou uma mensagem de admiração à artista, que considerou "a voz mais vigorosa da América Latina".Os Governos do Equador, Chile, e Venezuela expressaram sentimentos à cantora.

          Em uma de suas mais famosas músicas “Solo pido a Diós“ ,Mercedes dizia em sua letra que esperava que a morte não a encontrasse vazia e sem ter feito o suficiente... Sabia que seria assim, pois então, Sosa morre cheia de vida e com a certeza de ter feito o inimaginável.

          Haydée Mercedes Sosa, será cremada nesta segunda-feira, como era sua vontade. A família de "La Negra" informou que suas cinzas serão espalhadas em sua cidade natal, Tucumán, em Mendoza e na capital argentina, Buenos Aires.

DO SEU LEGADO:

  

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Mas, tem a inigualávem felicidade que Brunna trouxe...



Escrito por dono do quarto às 04h12
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COMO LA CIGARRA

Uma das músicas mais populares da Argentina, com um conteúdo onipresente, pertencente a todas as nações, extremamente verdadeiro no que transmite, quando encontramos o poder da nossa força, a resistência. Que inopinadamente vem, e sempre vem, e não há quem não tenha. Com música, seguir sempre cantando.

Renato Teixeira e o grande argentino Leon Gieco 

Cuarteto Zupay

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COMO  A  CIGARRA

"´ "´ "´ "´ "´ "´ "´ "´ "´ "´ "´ "

Tantas vezes me mataram
Tantas vezes morri
Mas agora estou aqui
Ressuscitando.
Agradeço ao meu destino
E à essa mão com punhal
Porque me matou tão mal,
E segui cantando...

 

Cantando ao sol
Como uma cigarra
Depois de um ano
Debaixo da terra
Igual a um sobrevivente
Regressando da guerra

 

 Tantas vezes me apagaram
Tantas desapareci
Ao meu próprio enterro fui,
Sozinho e chorando.
Fiz um nó do lenço,
Mas esqueci depois
Que não era a única vez
E segui cantando...

 

Cantando ao sol
Como uma cigarra
Depois de um ano
Debaixo da terra
Igual a um sobrevivente
Regressando da guerra


Tantas vezes me afastaram

Tantas reapareci,

E por tudo que vivi, vivi chorando,

E depois de tanto pranto,

Eu aos poucos percebi

Que meu sonho não tem dono

E segui cantando...


Cantando ao sol
Como uma cigarra
Depois de um ano
Debaixo da terra
Igual a um sobrevivente
Regressando da guerra

Tantas vezes te mataram
Tantas ressuscitarás
Quantas noites passarás
Desesperando
Mas na hora do naufrágio,
Na hora da escuridão,
Alguém te resgatarás
Para ir cantando...


Cantando ao sol
Como a cigarra
Depois de um ano
Debaixo da terra
Igual a um sobrevivente
Regressando da guerra



Escrito por dono do quarto às 02h03
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  PONTO DE REFERÊNCIA

Música: Coisas da vida - Rita Lee

Dobrei na Dom Severino já com a sensação que ou eu tinha atropelado alguém na última esquina ou eu mesmo tinha pulado na frente do carro e ficado para sempre naquela calçada... Eu já não era eu. Quem dirigia era alguém que resolvera assumir a direção no sentido de realmente matar aquele indivíduo imóvel, isento, incólume, que nem pedia, nem mendigava, nem saía dali.

 

Durante cada nova esquina tudo, estranhamente, ia ganhando outras perspectivas... E a cada perspectiva eu ria e de algumas eu lamentava e de outras eu engolia seco pra não chorar, e entre umas que minava uma estranha alegria, daquelas de gritar “Urrrrruuulllll” pela janela do carro. Mas eu só dirigia, olhando firmemente meu horizonte, afinal eram só perspectivas e ainda não uma realidade.

 

Olhei para o relógio, já tinha passado um bom tempo do horário do meu almoço... E eu senti uma alegria estupenda e estúpida em sentir fome, meu estômago urrava, me avisando que eu estava vivo. È normal se sentir-se imensamente feliz, por sentir fome, e saber-se plenamente vivo?

 

De algum lugar alguém mexia uma peça no jogo. No tabuleiro era um momento decisivo e eu, não sabia exatamente a proporção da jogada.

 

Tava tudo certo, naquela curva houve um estalo de consciência, um “bum”, algum ser interveio e soprou no meu ouvido várias verdades que eu já estava mais que na hora de saber. E, graças a Deus, neste dia, eu estava ótimo para intromissões, tava aberto a conselhos, ao novo, já prevendo, talvez, que algo extraordinário estaria por vir.

 

Era segunda feira... Segundas-feiras são excelentes dias pra começos e recomeços... Então, estava feito... Todo aquele sopro formou um vento... E na ventania eu ia decidindo o que e quem ficava e o que saía da minha vida, o que valia a pena ou o que era só de passagem. Misteriosamente, de um momento a outro, medos, situações e atitudes são enfim digeridas...

 

Necessariamente, quando nossas águas entram em ebulição, nosso ar evapora, nossa liquidez se desfaz, e algum fenômeno não conhecido por nós acontece sem que percebamos... Nesse momento, os pensamentos fluem numa rapidez e encadeamento perfeitos e sem premeditação. Pensa-se na rua mais movimentada de Havana, no melhor point de Florionópolis, na melhor praia de Aracajú, na avenida mais calma de Rio Branco... Poxa, como o mundo é imenso!

 

Há momentos decisivos em nossas vidas, momentos em que firmamos mais ainda nossos “nãos”, revemos muitos deles e damos novas chances aos “sins”. São quando os sonhos começam a descer do firmamento e engatinhar na arena dos que precisam vivê-los. É quando as metas começam a ter vida e os novos caminhos nos mandam convites. Respiramos com mais fôlego e coragem, então o que queremos se torna mais acessível.

 

Numa rua qualquer, ao dobrar uma esquina, uma fase se finda e outra se inicia. Olhamos pelo retrovisor do carro, numa saudade e num alívio, sabendo que tudo há de valer a pena, mais ainda do que já foi. Nos agarramos a alguma essência do que ainda somos e deixamos a casca cair...Uma nova pessoa aparece por traz daquela carcaça que já tão combinava quase nada com a nova vida.

 

Num instante, que silenciosamente sempre esperamos, os sorrisos oxigenam-se, as vontades se renovam, os olhares ganham um novo brilho e somente o que é de verdade permanece. A vida passa a ter outro cheiro, o que era tão igual dá lugar a espantos de felicidade e deslumbre porque as coisas voltam a surpreender.

 

Uma nova fase se inicia, porque é preciso seguir em frente... Ao parar no sinal, antes de dobrar naquela esquina novamente, eu chamarei o mendigo que ali estiver, lhe darei uma boa quantia, lhe desejarei boa sorte e muita fé na vida, mas lhe direi seriamente que ele saia dali o quanto antes e que não passe tanto tempo vendo a vida passar por ali como eu passei... Não alí mesmo, necessariamente.



Escrito por dono do quarto às 01h17
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 POEMA DO MENINO JESUS

Poema de Fenando Pessoa interpretado por Maria Bethânia



Escrito por dono do quarto às 04h29
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PROPÍCIO MONODRAMA DE ÚLTIMA INSTÂNCIA

OU

AMIGO JOÃO

 

Oi João, como vai?Beleza?!Demorou em! Senta aqui João! Vergonha João, vergonha das outras vezes que vim aqui e num era de verdade. Pô, faz tanto tempo que eu não vinha aqui...Ta mais lotado não é João?

 

Sai daí João... Calma!Espera! Não, não cava não João... Deixa eu te dizer, não me enterra agora não. Não veio ninguém? Ninguém mesmo?

 

Tô com medo, agora não João. Espera só mais um pouco... Pega aqui... Ta pulsando João? Será se eu estou vivo?Tá tão frio João... Num tem nem um espelho aí não, pra eu ver se eu tô respirando?

 

Eu sei João, você é um profissional, você tem um compromisso consigo mesmo, não dá pra pensar muito, nem esperar, é cumprir o ofício. Enquanto isso deixa só eu te dizer umas coisas, é rápido, eu juro João. Dá só mais um tempinho, por favor cara. Mas me diz, não veio ninguém mesmo?

 

Anota ai João, anota meu celular, estou com ele aqui, qualquer coisa se alguém vir, dá meu número, vai que eu tô vivo ainda. Dá aí o papel, a caneta... Olha é esse, não esquece, é esse número aqui, dá mesmo.

 

Sim João, deixa eu te dizer... Doeu demais João, foi profundo demais dessa vez, não foi como nas outras vezes...

 

Naquele dia me feriram, doía muito, aí eu liguei no jornal, doeu mais ainda, liguei pra um amigo, ele não entendeu nada, ardeu demais João. Tomei umas biritas, pra que né João? João mas aí eu parei, fiquei quieto, logo vi que ainda tava respirando. Aí João, eu me livrei do que tava me apunhalando, joguei fora, matei, enterrei... Pronto! Passou. Vixe! Nem lembro mais de nada, acredita João?

 

Ta vendo essa cicatriz aqui João? Ta vendo? Pega aqui, viu? Olha essa outra aqui! E essa ta vendo? São minhas João. Eu achava que eu ia escapar dessa vez... Eu morri mesmo João?Acho que morri João.Eu morri João?

 

E eu tava tão bem João, bonzinho, bacana mesmo. Tava feliz João... Não porque eu tivesse as melhores coisas, mas estava aproveitando as oportunidades com o que eu tinha. Mas eu achava que tava tudo se ajeitando, a vida tava caminhando bem...

 

Ahhh João... Tava nem aí pra gripe suína acredita? Nem aí mesmo! Fome, desemprego? Corrupção? Isso era piada pra mim João, tudo tava lindo demais. O mundo tava bom João, o céu parecia que tava aqui pertinho cara e eu nem tava bebendo tanto, acredita?

 

João, crise no Senado? Crises? Crimes? Ah João eu andava tão ocupado, que nem liguei pra isso... Se precisasse, eu pegaria sim o Sarney pelo braço, tomaria uns 2 minutos de prosa com ele e ele iria pensar tudinho, você ia ver João, por mim ele renunciava, na hora. Do jeito que eu tava indo, eu ia dar um jeito no Brasil.

 

Mas cá pra nós João. Sem lero lero... Você começou achando que essa dor aqui era coração João? Você acha cara? Logo agora que Teresina ganhou o Shopping da Cidade? Que os cabos da nova ponte estão quase completamente hasteados? Essa dor aqui João, não é coração não, é da vida mesmo. Coração dói, porque parece que a alma todinha cabe lá, mas é na alma a aflição. È na alma João!

 

Acho que a morte deve ser isso mesmo João... É quando a gente chega num certo grau de pensamento, a gente vai pensando, pensando, pensando... E Pã! Aí se morre!É um pensamento difícil, muito difícil... Pessoal pensa que é facinho morrer, mas não é não João, tem que chegar nesse pensamento certo. Tem gente que sem querer pensa, tem gente que inevitavelmente pensa, tem gente que só é capaz de pensar isso depois de muitos anos...

 

Ah João, acho que morri porque pensei demais... Em tudo que a abstração dos sentidos envolve e que a TV não mostra, nem se percebe muito fácil. Foi no além pele, além palavras, além tudo... Além da barreira coração, no que transcende João, sabe que parada é esse João?  Nessa de entrar em contato com o motivo das coisas, da essência...repito E-S-S-Ê-N-C-I-A, as coisas estão sem muito essência.

 

Tem maconha no meio não João, eu juro! Eu falo do essencial pra se viver. Do que é de verdade. È que ta faltando gente de verdade João. Gente sabe? De carne e osso, assim, que nem eu e você... Quem ame de verdade, quem sorria de verdade, quem cuide de verdade, quem minta de verdade, quem iluda de verdade Eu sei que to generalizando João... Gente que não se esconda por trás das segundas, terceiras, quartas intenções... Ta faltando gente ...

 

Aí João, fiquei triste...Veio como bala de canhão e acabou com tudo.Agora eu tô aqui fora do ar, fora de área, será que morri mesmo João? Será que é assim que se morre? Morrer deve doer mesmo, será? Se tem que ser assim... Pronto João, agora pode. Joga essa terra aí! Joga aqui na boca, joga pra ver se eu calo um pouco.

 

Eii, espera aí... Tô suando João, espera aí! Ta batendo João... Vê aqui...Sentiu? Sentiu né João?Olha só João, eu to vivo João! Eu sabia João, ninguém morre assim não. Eu to vivo cara!

 

João me ajuda aqui, tô vivo sim, demais, olha ali o sol João, não ta mais escuro não... Me tira daqui, me dá tua mão, me puxa! Deixa eu me sacudir aqui... Ufa! Valeu João, valeu meu amigo... Sempre é uma mão amiga que nos livra dessas horas.

João, será que eu tava doido? João, que loucura é essa? João eu conheço a morte sim... A morte é angústia, é dor, sofrimento... Embora signifique todas essas sensações, só quem as sente é quem fica, ainda que você perceba que quase morreu. A dor, é sensação dos conscientes, dos viventes.

 

È João, se a gente sofre, está tudo certo, não é a vez. Eu sabia, eu sabia sim! Como que eu não lembrei que o segredo é enterrar seus mortos, velar suas dores, livrar-se do que lhe mata, do que lhe golpeia, do que lhe pára, do que lhe impede?... Em um adeus, sempre há um renascimento... Mas não era eu que eu tinha que se enterrar não João.

 

Quando a gente nasce tudo ta novinho em folha João. È preciso enterrar pessoas, circunstâncias, para que elas deixem de vagar, e confundir nossas verdades. Mas eu renasci João. Problema num era eu não João.

 

Nesse constante estado de necessidade, pra sobreviver, a gente precisa enterrar e pra não morrer, a gente precisa estar vivo.

 

De corações sangrentos, corpos com cicatrizes, sem perna, sem braço... Todo mundo vive, só não pode deixar o coração parar. Nem por nada, nem por ninguém, que seja suficientemente importante pra isso. Deixa-me respirar fundo João, coração agüenta sim, parar é que não pode.

 

Sacode essa terra João, a Terra João! Você é um guardador de alma né João?!Tava precisando de alguém que guardasse minha alma, sei lá, afagasse minha alma,  cuidasse só, confundi João, desculpa!

 

Mas valeu pela amizade nessa hora tão incerta. Porque é no meio das incertezas que a certeza alarma. A verdade vem alegórica no meio do mar de incertezas. Valeu mesmo!Aprendi João, dessa vez aprendi João...Eu to aqui de passagem João, mas não foi dessa vez não, não foi não.

 

Enterrar João, pra viver eu tenho que aprender a enterrar João. Jogar no rio como os indianos, queimar... Tudo que morre pra gente, toda carnificina tem que decompor.

 

Nessa vida, ou se mata, ou se enterra, ou se morre, só assim dá pra seguir em frente. É nosso ofício. Depois João, me ensina a enterrar, matar não é comigo, morrer também não, mas tu me ensina a enterrar João, eu aprendo João, juro!

 

Desculpa aê João!



Escrito por dono do quarto às 01h06
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  CLARICE LISPECTOR

Eu e mais muitos, só mais uns fanáticos pelas palavras e por essa nobre senhora...



Escrito por dono do quarto às 05h03
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CIVILIZAÇÃO TERRESTRE

          Eu que se espremer vomito terra, arroto folha, árvore, riacho, pasto, arbusto... Se abraçar forte soluço peitoril, alguma andança a cavalo, conversas olhando para o céu estrelado. Soluço como quase um choro, como uma saudade, de tantos lugares que talvez  eu nunca vi, que eu nunca estive. E de poucos que ainda e sempre me pertencem.

 

          De cada canto de terra eu colecionei uma felicidade. De cada estrada, de cada viagem, a cada poste que ia passando pela janela do automóvel... Eu colecionei um suspiro. Vida é mato, é cobra que foge e emburaca na terra, é ventinho no final da tarde e o mesmo assobio que o vento faz ao entrar em casa, é o escramuçar do bezerro ao comer , o mugir da vaca ao voltar pro curral no final do dia, é entardecer, é aquela coragem que só o camponês tem, é o zunido dos chocalhos do gado brado. Vida é família toda no alpendre.

 

          E a vida da gente é um terreiro mesmo. Um terreiro com espaço para as crianças brincarem, pra acender fogueiras, terreiro com árvores frutíferas e com as ervas daninha pra alimentar os camaleões. E quanto mais o homem se distancia do mato, mais a felicidade fecha a porteira.

 

          Viver não tem nada a ver com Dow Jones, tendências, radioastronomia, física quântica, nem com glamour, nem com o Congresso Nacional, nem com Dolce & Gabana. Não tem nada a ver mesmo com a hipótese atomística, clonagem, nem com o genoma humano. Porque o que somos, não é visível aos olhos. È sensível.

 

          Todas essas coisas que querem dizer quem somos, são todas pseudociências, nada explica nada.O que eu digo não tem nenhuma intenção de ser uma racionalidade. Tudo que digo é hábil, carrega apenas a habilidade do espírito, quando descansa tranqüilo e sente a felicidade transpirar.

 

          Viver é a sensação de olhar uma chuva, ver a liberdade de um cavalo ao correr, são poçazinhas de lama, namorinho no festejo. Nada que se explique e tudo que felicite sem motivo. Todos os conhecimentos estão dispostos na natureza, ache-os, encontre-se. Viver é entrar em contato, é não perder de vista, nunca, o que sempre será nosso último posto, a terra.

 

          Quanto a mim, eu sou caboclo mesmo, pois minha ambição e satisfação se equivalem ao fim de cada dia, sou grato simplesmente por estar vivo. Não sou pragmático e por isso o extraordinário sempre me encontra. Logo quando deito, agradeço a Deus pelo meu dia, pela saúde, pela água, pelo verde, pela sintonia das coisas, dos seres e lamento a confusão do mundo...

 

          A vida é pequenina, cabe numa cabaça e deve ser carregada nem que seja nas costas. E nas cercas do mundo, ramos de cabaceiras se espalham, e só não colhe e guarda as suas, quem se detém no asfalto da estrada, do caminho.

 

          A tristeza, é que todas as próximas gerações, provavelmente, estarão perdidas, pois entre os corredores de concreto, os labirintos da prepotência humana, as lajes e os arranha-céus, o homem se priva dele mesmo. Nesses asfaltos não dá feijão, não dá milho verde, nem dá pra semear mais nada. Como jardineiro que somos, a construção depois de feita já cumpriu o seu intuito, mas um jardim sempre nos surpreenderá a cada dia .

 

          Cimento coagula o sangue, terra sempre há de adubar nossas vidas.  A natureza é nossa casa, e quem não aproveita e vive o aconchego do lar, é um mendigo do mundo.



Escrito por dono do quarto às 20h51
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  MONÓLOGO DAS MÃOS

“Monólogo das mãos”, de Ghiaroni, interpretado por Bibi Ferreira

“... E nos dois extremos da vida,

quando nascemos para o mundo ou quando partimos para sempre,

ainda são as mãos que prevalecem...”

A mão que afaga, a mão que feri, a mão que traz, a mão que lança...

Uma mão amiga, ou alguém pra pedir a mão...

Quem faz a história são nossas mãos, é com elas que escrevemos nossas vidas...



Escrito por dono do quarto às 03h15
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SILÊNCIO!

Texto de autoria de TATIANE BERNARDI, com alguns cortes e adaptações. Texto original em: http://www.tatibernardi.com.br/textos.php?id=272&y=2009&tit=Sil%EAncio

               Disse pra mim. Nenhum pio. Não vou falar nada. Já que sou tão impróprio, inadequado, bobo. Já que nunca basto e se tento me excedo. Já que não sei o que deveria ou exagero em querer saber o que não devo. Nunca entendo exatamente, nunca chego lá, nunca sou verdadeiramente aceito pela exigência propositalmente inalcançável. Meu riso incomoda. Meu choro mais ainda. Minha ajuda é pouca. Meu carinho é pena. Meu dengo é cobrança. Minha saudade é prisão. Minha preocupação chatice. Minha insegurança problema meu. Meu amor é demais. Minha agressividade insuportável.

                Meus elogios causam solidão. Minhas constatações boas matam o amor. As ruins matam o resto todo. Minhas críticas causam coisas terríveis. Minhas palavras cuidadas incomodam. Minhas palavras jogadas, mais ainda. Minhas opiniões sempre se alongam e cansam. Minhas histórias acabam sempre no egocentrismo... Meu sem fim dá logo vontade de encurtar. Minha construção, desconstrói. Meus convites quase nunca agradam. Meus pedidos sempre desagradam. Meus soquinhos de frases são jovens demais. Meu bombardeio de coisas sempre acaba em guerra. Minha paz que viria depois nunca chega, pois eu nunca chego... Minha voz brincalhona é ridícula. Minha voz séria alarde. Nenhum pio. Disse pra mim.

               ... Se digo algo sobre minha vida, só sei falar de mim. Se digo algo sobre a vida dela, coitado de mim, achando que sei alguma coisa da vida. Se falo sobre a vida dos outros, que papo furado é esse? Se falo sobre coisas me sinto mais um deles. Se provoco, eu que provoque sozinho porque ela não é trouxa de cair. Sobre livros, nunca são os que interessam. Sobre meu texto, nem quis ler. Meu trabalho nunca foi e nunca será do homem dos sonhos. Meus sonhos evito falar, um medo de ser menino. Quieto.

               É assim que será. Se digo certo, isso logo acaba. Se digo certeiro, acabou. Se digo errado, nunca acaba... Se eu for criança, fale com seu analista. Nenhum pio. Combinei comigo. Falar da gente pode? ... Nadinha. Não vou falar nada. Sobre dor não toca. Sobre prazer toca pouco. Nada. Porque toda vez que eu pergunto, quase ofende. E se respondo, ofende mais. E se exclamo, minha vontade de viver soterra. E se são três pontos, não posso. Se começo preciso terminar. Mas quando termino, ela já não está mais.

             Se repito, quase explode. Se digo uma, sou bom de ser guardado em algum lugar que nunca vejo. Se não explico, pareço louco. Se explico, sou louco. Quieto. Isso! Você consegue! Se for o que eu penso, eu penso errado. Se for o que eu não penso, errei por não pensar. Se não for nada disso, eu que pensasse antes. Se estou animado, cuidado com a rasteira. Se estou desanimado, não tem mão pra levantar.

               Nada. Não vou sussurrar. Nem gemer. Nenhum som. Respiração muda. O silêncio absoluto. Olhando pra ela. Lembrando de quando ela me disse que é no silêncio que se sabe a verdade. E a verdade chega como um teto gigante que desaba numa cabecinha de vento. O que eu mais temia. O que eu não queria descobrir. Ela me diz. E o pior é que eu nem posso falar por ela. É quase tudo mentira. Sem palavras...

Música “Ode to joy”, de Beethoven.



Escrito por dono do quarto às 23h21
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